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"Atingir a unificação do pensamento científico Ibero-Latino-americano, a través do aprimoramento de suas publicações, constitui uma tarefa nobre e um passo decisivo para a independência política e econômica de nossos países, assim como também para a hierarquização dos idiomas espanhol e português, símbolos de nossa irmandade latina". Com essas palavras conclui o Prof. José Gay Prieto o prólogo do primeiro número da revista Medicina Cutânea em 1966 (1).
Estes conceitos constituem a idéia impulsora de uma promissora carreira que começa em seu Madrid natal, onde se formou em 1925, para aperfeiçoar logo depois seus conhecimentos de Dermatologia junto a grandes mestres: Lucien-Marie Pautrier em Estrasburgo, Bruno Bloch em Zurich, Josef Jadassohn em Breslau. Considera-se um dos introdutores da escola francesa na Espanha (2-3).
Sendo um jovem de 24 anos de caráter vivo e esperto, com domínio de línguas estrangeiras, retorna a Madrid em 1929, onde ganha por concurso uma vaga nos Dispensários Oficiais Antivenéreos, ao mesmo tempo em que mantém sua colaboração com o catedrático José Sánchez-Covisa na Faculdade de Medicina e o Hospital San Juan de Dios (2). Este último lhe transmite o desejo de conformar uma união de dermatologistas de fala hispânica (4-5).
Em 1932, obtém mediante concurso a cátedra de Dermatologia e Sifiliografia da cidade de Granada. Até sua chegada, a produção científica dermatológica em Andaluzia era muito escassa. Nesse local monta um laboratório de química, bacteriologia, micologia e anatomia patológica, um quirófano para cirurgia dermatológica, um serviço de alergia, outro de doenças venéreas. Um de seus discípulos daquela época comenta: “Tínhamos que trabalhar a todo vapor; tínhamos que trabalhar com ilusão, com fé e constância. Ou seguíamos o ritmo, ou era melhor abandonar o serviço, como ocorreu com mais de um” (6).
É corpulento, combativo e possui um temperamento impulsivo e impetuoso, que o induz a reações bruscas e paroxísticas frente a determinadas pessoas (7). É o contínuo desconforme com tudo e com todos –até com ele mesmo- (8). Precisou dessas qualidades para afrontar uma das mais difíceis circunstâncias: a Guerra Civil Espanhola. Muitos projetos ficam inconclusos, como a associação dos dermatologistas de língua espanhola. Também Madrid, cidade já designada para ser sede do Congresso Mundial de Dermatologia, vê frustrado esse evento. No entanto, quando a atividade científica é quase impossível no resto da Espanha, o Dr. Gay Prieto consegue manter a publicação de Atas Dermo-Sifilográficas, a revista da Academia, em Andaluzia. Ainda mais, celebra em plena guerra um congresso em Sevilha (10).
Em 1940, concluída a guerra, obtém a cátedra de Dermatologia e Sifiliografia de Madrid e em 1944 ganha por concurso o cargo de Chefe do Serviço de Dermatologia do Hospital San Juan de Dios. Este último possui serviços cirúrgicos, cem camas e uma das policlínicas externas mais concorridas. É o terreno propício para o ensino de pós-grado, uma de suas preocupações quase obsessiva. É criada a Escola Profissional de Dermatologia e Venereologia, onde sempre procura reservar alguma de suas cobiçadas vagas para médicos hispano-americanos. A aprendizagem da especialidade é complementada durante os verões com cursos de Leprologia em Fontilles (Alicante).
Sua clareza expositiva, fácil dicção e pensamento fluído são muito apreciados pelos estudantes, entre os quais promove o diálogo, pouco comum durante esses anos. Suas aulas são especialmente práticas e faz com que os doentes sejam levados às aulas. Para aprovar é preciso simplesmente conhecer o mais fundamental da dermatovenereologia. “Porém, coitado daquele que não soubesse o que ele considerava mais fundamental”, lembra um discípulo (7). Seu trabalho docente adquire um amplo prestígio e calcula-se que formou a mais de 15.000 alunos ao longo de 40 promoções e mais de 60 discípulos (7,8).
Em 1942 aparece a primeira edição de sua Dermatologia, que ele mesmo considera uma de suas obras mais transcendentais. O livro introduz uma classificação das dermatoses inédita na literatura espanhola, baseada na etiologia e o critério morfológico. Até 1976, a Dermatologia de Gay atingiu 8 edições, sendo de forma continuada e indiscutível a obra de referência de dermatologia em espanhol (9).
Em 1947, sendo presidente da Academia Espanhola de Dermatologia e Venereologia e acompanhado pelos Drs. Félix Contreras Dueñas e José Gómez Orbaneja, viaja para as Jornadas Dermatológicas de Buenos Aires em ocasião das Bodas de Ouro da Associação Argentina de Dermatologia. Lá se constitui na cátedra do Prof. Baliña, uma comissão com o propósito de criar uma Federação Ibero-americana de Dermatologistas. A mesma está integrada pelo próprio Professor Gay Prieto, os professores Marcial Quiroga e Pedro Baliña da Argentina e A. F. da Costa Júnior e Hildebrando Portugal do Brasil. Membros da comissão percorrem Córdoba, Rosário, Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul e Recife, com o fim de difundir a idéia de alcançar a unidade mencionada (10,111). Esta se concreta finalmente em 1948, quando na sessão de clausura do V Congresso Internacional de Lepra da Havana se funda o Colégio Ibero-Latino-americano de Dermatologia (CILAD). Seus fins, segundo o artigo 1º do Estatuto, são “fomentar o intercâmbio científico e aproximação intelectual entre os dermatologistas de fala espanhola e portuguesa”. O Professor Gay Prieto é eleito Vice-presidente do Primeiro Diretório, presidido pelo Prof. João de Aguiar Pupo e no I Congresso Ibero-Latino-americano de Dermatologia no Rio de Janeiro –1950- sucede a este último na presidência do CILAD. São outorgadas bolsas, fomenta-se a pesquisa nos países integrantes e por sua iniciativa supera uma proposta de divisão do Colégio em uma rama americana e outra européia (5,122). Prevalece assim a vocação de unidade com a qual o Colégio tinha sido fundado e se fortalece a Dermatologia Ibero-americana, que começa a pisar mais forte nos organismos internacionais. |
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Em 1952 no X Congresso Mundial de Dermatologia de Londres ingressa junto com o Professor Marcial Quiroga ao Comitê Internacional. Anos mais tarde este último lembraria aquela época: “éramos uma ínfima minoria os de fala espanhola e nosso idioma não figurava entre os oficiais dos congressos internacionais da especialidade. Foi naquela época que no Comitê a discussão de Gay, e, depois de variadas diferenças, conseguiu com as justas razões do número de dermatologistas da Espanha e da América Latina e do progresso atingido pelos dermatologistas destas regiões, que o idioma espanhol fosse definitivamente incorporado junto com o francês, o inglês e o alemão às línguas oficiais de tais congressos. Nada menos do que isto, dou fé, lhe deve a dermatologia de fala espanhola a Gay Prieto.” (2). Ao finalizar sua gestão na presidência do CILAD, organiza o II Congresso Ibero-Latino-americano que se celebra em Madrid em outubro de 1953 no marco do VI Congresso Internacional de Lepra (5,122).
Posteriormente, em suas viagens de verão à Suíça, começa a trabalhar como consultor da Organização Mundial da Saúde, até que em 1958 é nomeado Chefe da Secção de Lepra da OMS, com sede em Genebra, cargo que desempenhará durante três anos. Fica impressionado com a situação dos doentes que em muitos países tem lepra bíblica, segregados por uma sociedade alheia e indiferente ao problema (7). Deste modo, empreende uma luta que alguns qualificam de quixotesca ao tentar desfazer velhos agravos (133). Em uma carta escreve: “Levo aqui um mês justo. Convoquei aqui um grupo muito interessante de químicos, histologistas, um cirurgião, dois leprólogos e dois bacteriólogos, para organizar um programa de pesquisa coordenado sobre o problema da lepra. Tenho em mente um programa muito ambicioso; veremos o que sai de um grupo tão heterogêneo que vou ter comigo durante dez dias, full time, com tradução simultânea até do russo. A reunião tem um custo de 10.000 dólares e para financiar o programa que estabeleçamos não existem limites...; se tudo sair bem, terei que viajar à Índia, África, Filipinas, Indonésia, etc.” (7). O programa é um êxito. Estabelece um extenso plano de controle e tratamento que abrange vários continentes, onde são distribuídas drogas, veículos, dinheiro e se inicia uma campanha móvel sem precedentes (2). Graças à distribuição de sulfonas, o censo e controle de doentes e demais ações sanitárias a endemia entra em declive no início da década de ´60 (7).
Regressa a Espanha em 1961, onde continua sua atividade, é um dos fundadores da revista Medicina Cutânea antecessora do órgão oficial de difusão do CILAD e de 1967 a 1972 ocupa a Presidência do Comitê Internacional de Dermatologia. Preside a Sociedade Internacional de Medicina Tropical e é Membro de Honra de uma lista inumerável de Sociedades de Dermatologia do mundo (2,144).
Sintetizando sua vida, comenta laconicamente em uma entrevista: “Pus em tratamento a mais de quatro milhões de leprosos e isso me enche de orgulho e satisfação” (7). |